domingo, janeiro 28, 2007
quarta-feira, janeiro 24, 2007
terça-feira, janeiro 23, 2007
Três Crivos
Certa vez, um homem esbaforido achegou-se ao grande filósofo e sussurrou-lhe aos ouvidos:
- Escuta, Sócrates... Na condição de teu amigo, tenho alguma coisa muito grave para dizer-te, em particular...
- Espera!... -ajuntou o sábio prudente. Já passaste o que vais me dizer pelos três crivos?
- Três crivos? -perguntou o visitante espantado.
- Sim, meu caro amigo, três crivos. Observemos se tua confidência passou por eles. O primeiro é o crivo da verdade. Guardas absoluta certeza, quanto àquilo que pretendes comunicar?
- Bem, – ponderou o interlocutor, – assegurar mesmo, não posso...Mas ouvi dizer e... então...
- Exacto. Decerto peneiraste o assunto pelo segundo crivo, o da bondade. Ainda que não seja real o que julga saber, será pelo menos bom o que me queres contar?
Hesitando, o homem replicou:
- Isso não... Muito pelo contrário...
-Ah! - Tornou o sábio – então recorramos ao terceiro crivo, o da utilidade, e notemos o proveito do que tanto te aflige.
- Útil?!... Aduziu o visitante ainda agitado. - Útil não é.
- Bem – rematou o filósofo num sorriso, – se o que tens a confiar não é verdadeiro, nem bom e nem útil, esqueçamos o problema e não te preocupes com ele, já que de nada valem casos sem edificação para nós!..
Lendas
- Escuta, Sócrates... Na condição de teu amigo, tenho alguma coisa muito grave para dizer-te, em particular...
- Espera!... -ajuntou o sábio prudente. Já passaste o que vais me dizer pelos três crivos?
- Três crivos? -perguntou o visitante espantado.
- Sim, meu caro amigo, três crivos. Observemos se tua confidência passou por eles. O primeiro é o crivo da verdade. Guardas absoluta certeza, quanto àquilo que pretendes comunicar?
- Bem, – ponderou o interlocutor, – assegurar mesmo, não posso...Mas ouvi dizer e... então...
- Exacto. Decerto peneiraste o assunto pelo segundo crivo, o da bondade. Ainda que não seja real o que julga saber, será pelo menos bom o que me queres contar?
Hesitando, o homem replicou:
- Isso não... Muito pelo contrário...
-Ah! - Tornou o sábio – então recorramos ao terceiro crivo, o da utilidade, e notemos o proveito do que tanto te aflige.
- Útil?!... Aduziu o visitante ainda agitado. - Útil não é.
- Bem – rematou o filósofo num sorriso, – se o que tens a confiar não é verdadeiro, nem bom e nem útil, esqueçamos o problema e não te preocupes com ele, já que de nada valem casos sem edificação para nós!..
Lendas
segunda-feira, janeiro 22, 2007
sábado, janeiro 20, 2007
Um estanho acordar

Era o último momento. Já só via aquela arma nua e fria que iluminava um sorriso prolongado e doente. A morte impacientava-se à espera que a bala fosse libertada, para fazer cumprir o meu plano na terra.
Confesso que não era este o fim que tinha em mente para a minha vida, sempre imaginei que morreria rodeado de uma multidão de aplausos, acompanhada por uma explosão policromática que se iria sentir em toda a Terra, que iria despertar todas as almas antigas que agora me vão receber.
A arma disparou. Acabou.
A minha mente já percebeu a morte, o meu corpo continua a negar a evidência que este ciclo acabou.
Uma bala sem remorsos, que não hesitou em entrar na minha vida para a tirar. Uma bala fria, que penetra no meu cérebro e se aloja bem ao lado dos meus sonhos, das minhas esperanças…
O corpo começa a perceber. Sinto um suor frio a percorrer-me. Não sinto dor. Não sinto medo.
Um escuro imenso começa a invadir a minha consciência, nem a noite mais densa é assim. Ouço uma voz muito ténue. É a voz de um anjo que me avisa que está no momento de abandonar aquele corpo maculado pela morte. Nunca me senti tão leve, já não carrego o peso da vida, nem o peso da morte. Tudo começa a clarear, estou a acordar.
Acordei.
Confesso que não era este o fim que tinha em mente para a minha vida, sempre imaginei que morreria rodeado de uma multidão de aplausos, acompanhada por uma explosão policromática que se iria sentir em toda a Terra, que iria despertar todas as almas antigas que agora me vão receber.
A arma disparou. Acabou.
A minha mente já percebeu a morte, o meu corpo continua a negar a evidência que este ciclo acabou.
Uma bala sem remorsos, que não hesitou em entrar na minha vida para a tirar. Uma bala fria, que penetra no meu cérebro e se aloja bem ao lado dos meus sonhos, das minhas esperanças…
O corpo começa a perceber. Sinto um suor frio a percorrer-me. Não sinto dor. Não sinto medo.
Um escuro imenso começa a invadir a minha consciência, nem a noite mais densa é assim. Ouço uma voz muito ténue. É a voz de um anjo que me avisa que está no momento de abandonar aquele corpo maculado pela morte. Nunca me senti tão leve, já não carrego o peso da vida, nem o peso da morte. Tudo começa a clarear, estou a acordar.
Acordei.
sexta-feira, janeiro 19, 2007
Ausências

- Que sinal é esse que tens na tua mão?
- É um sinal da dor que senti, que vivi.
- Que sofrimento foi esse? O que faz sofrer assim?
- A ausência.
- A ausência de quem? Do quê?
- A ausência que senti por não subir aquela montanha, por não ter cantado aquela música, por não ter visto aquele filme, por não ter dado aquele beijo, por não ter conhecido aquele país.
- Que triste…
- Triste é não sentir a ausência de nada sem ter tudo.
- Não te sentes triste então?
- Diz-me primeiro tu, sentes-te feliz? Não sentes nenhuma ausência?
- Não, sou feliz. Tenho uma vida boa.
- Então eu sinto-me triste, por ti.
Janelas

Um comboio que atravessa o nosso passado, por uma ponte estreita entre duas margens sem rio. O sol que aquece a nossa esperança é derramado lá fora, mas ele fazia tanta falta cá dentro.
Abre a janela então, deixa o sol entrar.
Perdi a chave desta janela…
Mas ela não tem fechadura, para que precisas de chaves?
Claro que tem fechadura. A fechadura desta janela sou eu e a chaves és tu.
Tens razão, perdeste a chave desta janela.
Eu sei.
Pastoral
Por ser tão leve o teu passar
Na estrada, à tarde, quando vens
De pôr o gado que não tens,
a pastar...
Por ser tão brando o teu sorrir,
Tão cheio de feliz regresso
Do longe prado, onde apeteço
contigo ir...
Por ser tão breve o teu querer
Alguém que de perto de ti passe
E, porque a tarde cai, te abrace.
Sem nada te dizer...
Por ser tão calmo o teu sonhar
Que já é tempo de não ter
Esse rebanho de pascer,
Mas outro de amamentar...
É que eu me perco no caminho
Do grande sonho sem janelas,
de estar contigo no moinho,
Sem o moleiro nem as velas.
Carlos Queirós
Na estrada, à tarde, quando vens
De pôr o gado que não tens,
a pastar...
Por ser tão brando o teu sorrir,
Tão cheio de feliz regresso
Do longe prado, onde apeteço
contigo ir...
Por ser tão breve o teu querer
Alguém que de perto de ti passe
E, porque a tarde cai, te abrace.
Sem nada te dizer...
Por ser tão calmo o teu sonhar
Que já é tempo de não ter
Esse rebanho de pascer,
Mas outro de amamentar...
É que eu me perco no caminho
Do grande sonho sem janelas,
de estar contigo no moinho,
Sem o moleiro nem as velas.
Carlos Queirós